quarta-feira, 21 de março de 2012

Sem música o mundo seria infinitamente mais pobre.

Zeca Afonso, Qualquer dia.


Qualquer dia...




João M

segunda-feira, 5 de março de 2012

Europa 1. Da Europa ou uma certa maneira de ser cultura


A Europa vive hoje tempos sombrios. Não tão sombrios como os que viveu durante as duas guerras mundiais, ou outros em que foi palco de sangrentos conflitos por motivos territoriais e ideológicos – políticos, económicos ou religiosos. No entanto, depois da segunda guerra mundial, a Europa, qual fénix, renasceu das suas próprias cinzas. Ao longo de meia dúzia de décadas, parecia fadada para concretizar a utopia comunitária que lança as suas raízes no “projecto da paz perpétua” kantiano e na profecia dos Estados Unidos da Europa, de Victor Hugo. Após o período que medeia entre Março de 1957 (Tratado de Roma) e Dezembro de 2007 (Tratado de Lisboa), a Europa parece ter entrado numa espiral de entropia que a conduzirá inevitavelmente ao fracasso e fim de um sonho. Terminará o sonho em pesadelo? Quais os contornos do que se avizinha? Não o sabemos. Mas podem muito bem coincidir com os do fim de uma “ideia da Europa”, a qual, no dizer de Husserl, “designa a unidade de uma vida espiritual e uma actividade criativa”, que se identifica com a Filosofia.
A tese de Husserl, no seu texto A Filosofia e a Crise do Homem Europeu (1935), é conhecida. De tão conhecida, talvez já tenha entrado no esquecimento. E como o esquecimento das raízes pode ser perigoso! Revisitá-la pode, pois, ser uma boa terapia. Não será deste tipo de terapias que os europeus hoje mais precisam?
Segundo Husserl, a Europa origina-se em solo grego, nos séculos VII e VI a.C., e tem como protagonistas os filósofos que ousaram empreender a aventura espiritual do pensamento crítico, conduzindo-os por veredas nunca antes percorridas, as veredas do questionamento da tradição e das verdades aceites como óbvias, em virtude de uma atitude natural. A mudança de atitude em que assenta o filosofar (epoché transcendental) traduz-se numa “cultura de ideias” cujos vectores principais são a autonomia e a universalidade que configuram a “forma espiritual da Europa”. A crise desta forma de ser cultura radica no empobrecimento da essência da racionalidade europeia – originariamente filosófica – que se alienou numa racionalidade unilateral inerente ao modelo hegemónico das ciências (naturalismo e objectivismo), inscrito no projecto da modernidade. Esta crise tem apenas duas saídas; ou a decadência, que significa o triunfo do irracionalismo e da barbárie (o sono da razão já tinha criado o monstro Hitler); ou o heroísmo da razão que conduziria ao renascimento da Europa. Para que tal suceda é necessário ter a coragem de travar “um combate sem fim”. Conhecem-se os inimigos. No entanto, “o maior perigo da Europa é o grande cansaço”. 
Seremos nós hoje capazes de vencer o cansaço e de lutar contra as reconfigurações do tal naturalismo e objectivismo de que falava Husserl? Que rostos novos apresentam nos dias de hoje? Estaremos à altura de, parafraseando Eduardo Lourenço, proceder à “invenção de um caminho e de uma saída que ninguém nos deu nem pode descobrir em vez de nós”? (Da Europa como Cultura, 1989) Seja como for, nunca será demais ouvir, a propósito, as palavras sensatas de George Steiner: “É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ‘a vida não reflectida’ não é efectivamente digna de ser vivida.” (A Ideia da Europa, 2004) Vale a pena terminar com outra questão: não conduziria o fim da Europa ao fim da Filosofia ou, evocando novamente Eduardo Lourenço, ao fim de “uma certa maneira de ser cultura”?


J.M.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Da excelente Casa Conveniente, uma nova peça para ver de 28 de Fevereiro a 4 de Março.


BOMBAS (ou agonias para estes tempos felizes de crises) de Susana Vidal


João M
Sem música o mundo seria infinitamente mais pobre.

Thomas Tallis, Spem in Alium



João M

Cornelius Castoriadis

“Não existe omnipotência dos Estados instituídos. O seu poder não é senão a outra face da crença das pessoas nesse poder. Quanto ao resto não tenho resposta. Tudo depende do desejo e da capacidade dos homens e das mulheres de mudarem a sua existência social, de aceitarem que são responsáveis pelo seu destino, de assumirem plenamente essa responsabilidade. Se tudo o que dissemos significa politicamente alguma coisa, é alguma coisa que se deixa resumir muito simplesmente. Trata-se de lembrar aos homens a seguinte verdade elementar, que conhecem bem, mas que esquecem regularmente quando estão em causa assuntos públicos: nem a expansão da economia capitalista, nem o governo, nem as leis da História, nem o Partido trabalham, alguma vez, para eles. O seu destino será aquilo que eles próprios quiserem e forem capazes de fazer.”

                              Uma Sociedade à deriva.

João M

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pingo Doce: "venha cá!"

Fui um cliente mais ou menos assíduo das lojas Pingo Doce. Nunca o fui por qualquer convicção específica, do género “os seus produtos são mais frescos” ou “poupa-se mais comprando nas suas lojas”. Confesso até que me irritam os spots publicitários em que se canta em coro uma cantilena que nos promete o melhor dos mundos e termina com um “venha cá” salvífico. A minha fidelidade é mais do tipo preguiçoso. O Pingo Doce está ali mesmo à mão, que é como quem diz “é ali mesmo ao virar da esquina”. Mesmo quando rebentou há dias o escândalo da fuga aos impostos do grupo Jerónimo Martins para o paraíso fiscal da Holanda, mantive-me serenamente fiel à minha preguiça crónica. Não sintonizei de pronto a onda de indignação patriótica, nem comunguei do desejo de punir os traidores e de aderir à ideia do boicote aos negócios daquele grupo económico. Sou até capaz de compreender as razões do empresário, à luz da lógica da globalização económica de rosto capitalista. Contrariando a tese de Max Weber, o rosto do capitalismo actual não tem ética. Também eu, se me concedessem a hipótese de escolher, pagaria os meus impostos num outro país de horizontes económicos mais promissores. E não me importaria com os nomes que me chamassem.
No entanto, hoje de manhã tudo mudou. Ao chegar à entrada do Pingo Doce perto da minha casa, uma menina fardada a condizer pôs-me nas mãos um folheto com o título “Esclarecimento aos nossos clientes”. Li-o num ápice. De repente, deu-me uma vontade danada de mandar às urtigas aquela fidelidade consolidada por um longo hábito tecido de preguiças mesquinhas. Disse de mim para comigo “Shit! Estou esclarecido. e dei corda aos sapatos. Talvez um dia venha a esquecer este episódio e volte lá.

José M.