quinta-feira, 31 de maio de 2012

Recordando Martin Hannett (1948-1991)


Músico e produtor britânico, para além de elemento fundamental na lendária Factory Records, Martin Hannett foi um visionário que revolucionou a música dos anos 80. Trabalhou com várias bandas, mas o seu génio ficará para sempre associado aos Joy Division, de quem produziu dois álbuns: Unknown Pleasures e Closer.





João M

domingo, 27 de maio de 2012

Du temps perdu au temps retrouvé com Marcel Proust

Comecei a ler Em busca do tempo perdido. Para ser mais preciso, retomei a leitura do primeiro volume desta obra maior de Marcel Proust, Do lado de Swann, que abandonei há meia dúzia de anos quando ainda não tinha atingido a centésima página. Lembro-me então de ter pensado que, por se tratar de uma obra longa – mais de três mil páginas – a necessitar de ruminação lenta, o melhor seria guardá-la para o Verão, estação mais propícia a empreendimentos desta natureza, que exigem fôlego de maratonista. Passou o Verão e outros, ciclicamente, passou-se o tempo, e nunca mais lhe peguei. Volta e meia deparava-me com a sua lombada aprumada na estante reservada aos clássicos que ainda um dia haveria de ler, ponderando distraidamente a hipótese de cumprir esse desígnio, mas logo a enormidade da empreitada me fazia abandoná-la, adiando sine die a tarefa que adivinhava hercúlea.             
Foi o facto de ter assistido, na biblioteca do Liceu Camões, há dias, a uma aula aberta de Clássicos da Literatura, da iniciativa da professora Cristina Duarte, subordinada ao tema À la recherche du temps perdu, para a qual convidou Pedro Tamen, seu tradutor, foi esse acontecimento que me levou a retirar de novo o livro da prateleira, a abri-lo na primeira página, depois respirar fundo, e ler “Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes,…”, continuando página após página até os olhos me pedirem repouso.
O poeta falou durante quase sessenta minutos de Marcel Proust. Falou da sua vida e de alguns detalhes significativos da tradução dessa obra, que lhe consumiu três anos de uma lenta e exaltante agonia, ao ponto de, confidenciou, chegar a partilhar com as personagens confidências e inquietações que nem com os familiares partilhava. Revelou também os tormentos penados em busca da palavra exacta, as insónias que lhe tomavam conta das noites e os sonhos povoados por essas personas que entram e saem do romance sem se despedirem, voltando a reentrar um milhar ou mais de páginas adiante, sonhos que muitas vezes o conduziam à solução dos problemas prosaicos que a tradução honesta sempre coloca.     
Falou sempre com voz cadenciada, respeitando os ritmos de uma língua que aprendeu a manusear com mestria única no demorado ofício de traduzir obras alheias ou de verter em versos vozes que se transfiguram em poemas. Duas coisas disse que os ouvintes retiveram mais do quaisquer outras, pelo menos a julgar pelo que depois se comentou na sua ausência: a primeira, óbvia – que o tempo é o tema do romance; a segunda, que a leitura de uma obra como À la recherche du temps perdu transforma de tal modo o nosso ethos pessoal, que depois de se a ler, não se é o mesmo.
No final da palestra, aos aplausos oferecidos seguiram-se as perguntas. Timidamente uns, mais afoitos outros, alguns alunos interrogaram-no. Quiseram saber se o Marcel personagem se identifica com o Marcel autor, se a narrada dependência materna revela a dependência real. Perguntaram coisas do estilo, da técnica narrativa. Percebia-se que tinham preparado bem a lição. O poeta esclareceu quanto pode, solícito e benevolente. E eu então lembrei-me que seria oportuno questioná-lo acerca do Proust leitor. Sublinhei que, em se tratando de um romance pensado e escrito numa época que viu aparecer Einstein e a sua interpretação da relatividade espácio-temporal; que viu serem publicados livros cuja temática do tempo surgia explicitada nos seus títulos, designadamente de filósofos como Henri Bergson – Essais sur les données immédiates de la conscience (1889) – e Edmund Husserl – A consciência íntima do tempo (1905); que viu serem dados à estampa os romances de Virgínia Woolf e de James Joyce, romancistas de certo modo prisioneiros de uma estética narrativa da corrente de consciência; enfim, se as leituras de Proust não poderiam de algum modo elucidar-nos sobre eventuais influências que possa ter sofrido a sua construção romanesca.    
Com a humildade dos homens verdadeiramente sábios afirmou que ignorava quase tudo dessa dimensão do Proust leitor, que suspeitava contudo que teria sido um leitor atento do filósofo francês, mas que sim, que o início do séc. XX marcou a fase mais empolgante da modernidade, a qual tem na consciência do tempo um dos seus leitmotivs principais, etc. 
Na minha vida de leitor e não só, como na de muitos outros, creio, é uma mistura de acaso e de necessidade que determina os livros que se leem, de fio-a-pavio uns, aos solavancos outros, ou os livros que se abandonam como cães sarnosos à beira da estrada. Neste caso, foi um acaso feliz, caldeado com a consciência infeliz de uma necessidade há muito tempo adiada, a que me haveria de reconduzir du temps perdu au temps retrouvé com Marcel Proust.

José M.

quinta-feira, 24 de maio de 2012


A educação dos simples.



Num mundo cada vez mais complexo e global. Num país em que do Presidente da República aos empresários todos falam da inovação como elemento fundamental para o nosso futuro colectivo, o Ministério da Educação e Ciência resolve tirar um coelho da cartola: Ensino profissional com áreas prioritárias, a saber, caça, pesca e agricultura. Penso que poderíamos ter ido mais além e gizar um perfil educativo de excelência a partir, por exemplo,  dos seguintes cursos: Curso profissional de Telegrafista; Curso profissional de Datilógrafo e Curso Profissional de Amolador de Facas. Isto, meus senhores, é rasgar horizontes e ter uma visão de futuro. Estamos bem!

João M.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Da fenomenologia da crise ou o ócio como oportunidade de… exclusão social

A palavra crise entrou, definitivamente, do léxico corrente. Toda a gente fala da crise … almoça crise, janta crise e dorme com a crise. Tornou-se uma inevitabilidade. Muitas são as evidências disso, umas mais óbvias que outras. Duas notícias recentes evidenciam o modo como, nestes tempos, o fenómeno da crise é vivido pelos portugueses. Sobremaneira importa realçar o sentido, necessariamente diverso, que os seus diferentes actores lhe conferem. Para isso basta cruzar as duas notícias, cada qual a apontar para sectores opostos da soberania democrática e retirar desse cruzamento as justas ilações. Avancemos para a primeira.   
Pedro Passos Coelho, o representante máximo da soberania política logo após o Presidente da República, lançou recentemente um desafio aos desempregados deste país: encarem a crise como uma «oportunidade para mudar de vida». Para além do mal-estar que tal afirmação provocou no seio da oposição, que logo aproveitou para dela retirar os dividendos políticos possíveis, ela atingiu em cheio a dignidade pessoal dos milhares de pessoas (há quem garanta que já ultrapassam o milhão) que engrossam já as fileiras dos verdadeiros excluídos da sociedade. Pode o primeiro-ministro apregoar que falar verdade aos portugueses é a sua verdadeira missão como político, pretendendo com isso escudar-se na imagem de um José Sócrates rotulado de Pinóquio e de campeão das “inverdades”, das trapalhadas e das promessas não cumpridas. Com o tempo de nada lhe valerá. O kairós – o sentido da oportunidade – ensinaram-no os sofistas como Górgias, é a alma de um político. A inoportunidade de Pedro Passos Coelho foi, neste caso, gritante, como aliás em outras circunstâncias similares em que não só se mostrou insensível perante o drama daqueles para quem a situação de desempregados lhes devolve o significado de párias e de inúteis (recorde-se o episódio ainda recente em que aconselhou os jovem a emigrar) como demonstrou que não tem soluções para responder aos desafios mais prementes da actual política nacional. Incinerando, deste modo, a alma de quase um milhão de compatriotas, a acreditar nos números oficiais do desemprego, parece condenado a perder a sua.
Como interpretar as palavras do primeiro-ministro? Que sentido político retirar delas? Independentemente da inegável afronta que elas constituem para os visados, associar desemprego forçado com oportunidade apenas pode significar uma coisa: a existência de uma leitura ideológica – claramente assumida e patente na reiteração do dito, por parte do primeiro-ministro – do infortúnio que constitui a situação de desemprego. A ideologia ultraliberal interpreta o desemprego como uma oportunidade para o desempregado, uma oportunidade para este mudar de vida. Que cenário vislumbra ele com a concretização desta mudança? Tornar-se competitivo, isto é, tornar-se empreendedor, fazendo uso do seu engenho ou da sua capacidade empresarial e montar um negócio, criando postos de trabalho, ou então aceitar salários ao nível dos praticados em países como a China ou a Índia. Numa frase: sucesso ou miséria. De qualquer modo, a permanência na situação de desemprego assume, para a ideologia neoliberal, a ideia de um fracasso pessoal de que o único culpado é o desempregado. É por sua exclusiva responsabilidade que a mudança de vida não se concretiza. Quanto ao Estado, este não deve interferir em questões que apenas dizem respeito aos mercados e aos indivíduos, questões que têm que ver com a liberdade, lavando o governo as sua mãos como Pilatos. Em razão disso, decide abandonar os desempregados à sua sorte, que se traduz na lotaria do darwinismo social cujo espelho é este capitalismo selvagem de que são vítimas. A par do ferrete da “exclusão social”, mácula sem redenção num mundo que se guia pelos imperativos do consumo – em que o valor da existência mede-se pelo valor do consumo – ganha o desempregado um ócio forçado. Esse ócio – como afirmou Eduardo Lourenço em O Esplendor do Caos -, filho mimado do esplendor liberal, que nos asseguraria a todos uma vida de permanente gozo virtual, de que a droga é a grosseira antecipação, não põe termo, como nas utopias, ao famoso “estado de necessidade”. É precisamente o contrário, a prisão perfeita onde ninguém nos encerra, feita unicamente da nossa diferença com aquela “humanidade-outra”, que detém – ou pensa deter – o poder de separar os que têm direito “a trabalhar” dos que serão – ou já são – condenados ao gozo demente do ócio obrigatório. Só que esta nova espécie de ócio se chama desemprego.”  
Passemos à segunda notícia que deu conta de um facto curioso ocorrido no santuário de Fátima, no sábado passado. Nestes tempos de crise, as velas vendidas e queimadas na tradicional procissão nocturna ascendeu, em peso bruto, às dezanove toneladas, oito das quais até à hora de almoço, quando em anos anteriores na parte da manhã eram derretidas apenas duas toneladas. Não se tratando de um argumento de peso para fazer valer a ideia de um acréscimo de fiéis ao catolicismo, desmentido por estudos e relatórios que os media a propósito referiram, somente pode significar outra coisa bem mais prosaica, a saber, que o povo entregou nas mãos de Nossa Senhora de Fátima, isto é, à sua fé na providência divina, a solução dos seus problemas terrenos, ao invés de a entregar nas mãos daqueles em quem um dia terá delegado a esperança num amanhã mais risonho. Substituir assim os políticos por Deus revela, inequivocamente, o sentido da descrença generalizada na representatividade política.       
Destas duas notícias resulta uma espécie de fenomenologia da crise, que nos mostra, entre outras coisas, que está em causa o problema da representação democrática. Quando os políticos, em acções e palavras, se apartam do povo, e quando simultaneamente os cidadãos não se reconhecem quer nas decisões quer nos discursos políticos, ou não se veem representados pelos políticos que elegeram, o que vai dar ao mesmo, é o próprio paradigma da democracia representativa que está em crise. As consequências estão à vista. Em Portugal, o afluxo de gente ao Santuário de Fátima, impelida por promessas em que apenas a sua fé lhes confere algum crédito; noutros países da Europa, a emergência de partidos políticos de configuração neonazi, que rompem com a matriz democrática decadente que lhes deu alento e razão de existir. Por que caminhos nos conduzirão amanhã os nossos passos hesitantes?
José M.

domingo, 15 de abril de 2012

Das palavras e das coisas


É costume associarmos a palavra fundamentalismo a formas de governo teocráticas e a países em que predomina uma visão conservadora das crenças religiosas, assim como à tendência para orientar os crentes no sentido de um regresso aos dogmas considerados como fundamentais ou originários. O fundamentalismo islâmico é, hoje por hoje, o exemplo que nos vem imediatamente à cabeça. No entanto, atitudes fundamentalistas não são exclusivas de assuntos religiosos nem de governos ditos autocráticos e iliberais. Mesmos em países de governos classificados como democráticos e liberais, como é o caso do governo português, os tiques fundamentalistas podem tornar-se evidentes. 
O primeiro deles é sem dúvida o fundamentalismo do mercado. Impera no governo a crença de que os mercados – e não a política – constituem a solução para todos os nossos males. O regresso aos mercados transformou-se na ideia de paraíso que nos salvará do inferno em que, por culpa própria, entretanto vivemos. Inevitavelmente, teremos de passar pelo purgatório de um programa de empobrecimento (in)voluntário – em curso - e, paralelamente, por um processo de emagrecimento do estado. Tudo isto à revelia da vontade popular. Apenas porque a Troika, a mando dos mercados, dixit. Depois disso, os mercados farão o seu trabalho. Virão charters de investidores estrangeiros, que produzirão tanta riqueza que sobejará dos seus bolsos e escorrerá até aos dos mais pobres.
Outro tique fundamentalista pode ser constatado nas últimas medidas que o ministro da saúde quer impor aos cidadãos que sofrem da doença do tabagismo. Trata-se simplesmente de proibir aos fumadores o seu vício, no espaço privado dos seus automóveis, quando acompanhados de crianças. O problema não está na possibilidade de fiscalizar ou não o interdito. Está, em primeiro lugar, no abuso do poder do estado face à liberdade do indivíduo; em segundo lugar, encontra-se na sobredeterminação do privado pelo público; por último, na imposição ao cidadão comum da ideia de bem, não o deixando escolher o que para si é uma “vida boa”. Tudo isto poderia ser compreensível, não se desse o caso de estarmos perante um governo que se diz liberal ao mesmo tempo que pretende legislar contra os princípios basilares do liberalismo.                    
O cerne do fundamentalismo assenta numa crença que, à força da sua repetição, tem pretensões de exclusividade à posse da verdade. Essa crença assume, no mundo ocidental e nos últimos trinta anos, uma feição económica. Oriunda das escolas económicas austríaca e de Chicago (cujos gurus foram Friedrich Hayek Milton Friedman) corre mundo, globaliza-se e faz doutrina. Ela exprime-me hoje na mais perigosa de todas as ideias, em termos políticos: não há alternativa!

José M

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Franklin Delano Roosevelt, I welcome their hatred.
Madison Square Garden, 1936


Na época da total falência da política, que as grandes figuras do passado nos possam inspirar.



João M

terça-feira, 27 de março de 2012

Sem música o mundo seria infinitamente mais pobre.

John Dowland, Flow my tears.



João M

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sem música o mundo seria infinitamente mais pobre.

Zeca Afonso, Qualquer dia.


Qualquer dia...




João M

segunda-feira, 5 de março de 2012

Europa 1. Da Europa ou uma certa maneira de ser cultura


A Europa vive hoje tempos sombrios. Não tão sombrios como os que viveu durante as duas guerras mundiais, ou outros em que foi palco de sangrentos conflitos por motivos territoriais e ideológicos – políticos, económicos ou religiosos. No entanto, depois da segunda guerra mundial, a Europa, qual fénix, renasceu das suas próprias cinzas. Ao longo de meia dúzia de décadas, parecia fadada para concretizar a utopia comunitária que lança as suas raízes no “projecto da paz perpétua” kantiano e na profecia dos Estados Unidos da Europa, de Victor Hugo. Após o período que medeia entre Março de 1957 (Tratado de Roma) e Dezembro de 2007 (Tratado de Lisboa), a Europa parece ter entrado numa espiral de entropia que a conduzirá inevitavelmente ao fracasso e fim de um sonho. Terminará o sonho em pesadelo? Quais os contornos do que se avizinha? Não o sabemos. Mas podem muito bem coincidir com os do fim de uma “ideia da Europa”, a qual, no dizer de Husserl, “designa a unidade de uma vida espiritual e uma actividade criativa”, que se identifica com a Filosofia.
A tese de Husserl, no seu texto A Filosofia e a Crise do Homem Europeu (1935), é conhecida. De tão conhecida, talvez já tenha entrado no esquecimento. E como o esquecimento das raízes pode ser perigoso! Revisitá-la pode, pois, ser uma boa terapia. Não será deste tipo de terapias que os europeus hoje mais precisam?
Segundo Husserl, a Europa origina-se em solo grego, nos séculos VII e VI a.C., e tem como protagonistas os filósofos que ousaram empreender a aventura espiritual do pensamento crítico, conduzindo-os por veredas nunca antes percorridas, as veredas do questionamento da tradição e das verdades aceites como óbvias, em virtude de uma atitude natural. A mudança de atitude em que assenta o filosofar (epoché transcendental) traduz-se numa “cultura de ideias” cujos vectores principais são a autonomia e a universalidade que configuram a “forma espiritual da Europa”. A crise desta forma de ser cultura radica no empobrecimento da essência da racionalidade europeia – originariamente filosófica – que se alienou numa racionalidade unilateral inerente ao modelo hegemónico das ciências (naturalismo e objectivismo), inscrito no projecto da modernidade. Esta crise tem apenas duas saídas; ou a decadência, que significa o triunfo do irracionalismo e da barbárie (o sono da razão já tinha criado o monstro Hitler); ou o heroísmo da razão que conduziria ao renascimento da Europa. Para que tal suceda é necessário ter a coragem de travar “um combate sem fim”. Conhecem-se os inimigos. No entanto, “o maior perigo da Europa é o grande cansaço”. 
Seremos nós hoje capazes de vencer o cansaço e de lutar contra as reconfigurações do tal naturalismo e objectivismo de que falava Husserl? Que rostos novos apresentam nos dias de hoje? Estaremos à altura de, parafraseando Eduardo Lourenço, proceder à “invenção de um caminho e de uma saída que ninguém nos deu nem pode descobrir em vez de nós”? (Da Europa como Cultura, 1989) Seja como for, nunca será demais ouvir, a propósito, as palavras sensatas de George Steiner: “É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ‘a vida não reflectida’ não é efectivamente digna de ser vivida.” (A Ideia da Europa, 2004) Vale a pena terminar com outra questão: não conduziria o fim da Europa ao fim da Filosofia ou, evocando novamente Eduardo Lourenço, ao fim de “uma certa maneira de ser cultura”?


J.M.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Da excelente Casa Conveniente, uma nova peça para ver de 28 de Fevereiro a 4 de Março.


BOMBAS (ou agonias para estes tempos felizes de crises) de Susana Vidal


João M
Sem música o mundo seria infinitamente mais pobre.

Thomas Tallis, Spem in Alium



João M

Cornelius Castoriadis

“Não existe omnipotência dos Estados instituídos. O seu poder não é senão a outra face da crença das pessoas nesse poder. Quanto ao resto não tenho resposta. Tudo depende do desejo e da capacidade dos homens e das mulheres de mudarem a sua existência social, de aceitarem que são responsáveis pelo seu destino, de assumirem plenamente essa responsabilidade. Se tudo o que dissemos significa politicamente alguma coisa, é alguma coisa que se deixa resumir muito simplesmente. Trata-se de lembrar aos homens a seguinte verdade elementar, que conhecem bem, mas que esquecem regularmente quando estão em causa assuntos públicos: nem a expansão da economia capitalista, nem o governo, nem as leis da História, nem o Partido trabalham, alguma vez, para eles. O seu destino será aquilo que eles próprios quiserem e forem capazes de fazer.”

                              Uma Sociedade à deriva.

João M

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pingo Doce: "venha cá!"

Fui um cliente mais ou menos assíduo das lojas Pingo Doce. Nunca o fui por qualquer convicção específica, do género “os seus produtos são mais frescos” ou “poupa-se mais comprando nas suas lojas”. Confesso até que me irritam os spots publicitários em que se canta em coro uma cantilena que nos promete o melhor dos mundos e termina com um “venha cá” salvífico. A minha fidelidade é mais do tipo preguiçoso. O Pingo Doce está ali mesmo à mão, que é como quem diz “é ali mesmo ao virar da esquina”. Mesmo quando rebentou há dias o escândalo da fuga aos impostos do grupo Jerónimo Martins para o paraíso fiscal da Holanda, mantive-me serenamente fiel à minha preguiça crónica. Não sintonizei de pronto a onda de indignação patriótica, nem comunguei do desejo de punir os traidores e de aderir à ideia do boicote aos negócios daquele grupo económico. Sou até capaz de compreender as razões do empresário, à luz da lógica da globalização económica de rosto capitalista. Contrariando a tese de Max Weber, o rosto do capitalismo actual não tem ética. Também eu, se me concedessem a hipótese de escolher, pagaria os meus impostos num outro país de horizontes económicos mais promissores. E não me importaria com os nomes que me chamassem.
No entanto, hoje de manhã tudo mudou. Ao chegar à entrada do Pingo Doce perto da minha casa, uma menina fardada a condizer pôs-me nas mãos um folheto com o título “Esclarecimento aos nossos clientes”. Li-o num ápice. De repente, deu-me uma vontade danada de mandar às urtigas aquela fidelidade consolidada por um longo hábito tecido de preguiças mesquinhas. Disse de mim para comigo “Shit! Estou esclarecido. e dei corda aos sapatos. Talvez um dia venha a esquecer este episódio e volte lá.

José M.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Arturinho e os alemães

O convite para almoçar partira do Arturinho, o presidente da câmara, que António conhecia de ouvir falar ao pai, recentemente falecido, e de palavras trocadas em encontros ocasionais, sempre concluídas com um cumprimento de mão acalorado e recomendações “à senhora sua mãe e ao senhor engenheiro”.
O almoço era inevitável. A câmara tomara posse administrativa de um largo talhão de uma tapada da família, destinado a uma nova avenida central na vila, para o qual estipulara um pagamento pouco mais do que simbólico. A faixa abrangia, ainda, sete parcelas  reservadas para a construção de outros tantos edifícios,  a pagar ao mesmo preço, os quais passariam a constituir, uma vez erguidos, uma muralha no acesso mais directo à propriedade.
Passados vários meses sem resposta à carta em que a família  recusou os valores adiantados, que se dispunha a trocar por dois lotes e um acesso, e iniciadas as obras, António telefonou ao presidente que, de imediato, o convidou a vir de Lisboa à vila para almoçarem.
No único restaurante recente, em sala recatada e mesa usual, a conversa saltitou e alongou-se, a propósito das recentes eleições, das novidades locais, do ano agrícola e dos méritos de conhecidos comuns. Alguns comensais abeiraram-se para dar uma palavrinha e dois saíram saboreando o gosto dos despachos favoráveis e expeditos: “fale com o senhor Robalo, da secretaria, e diga-lhe o que ficou combinado”.
O assunto da expropriação ficou para tratar em gabinete presidencial. Perante as plantas desdobradas, a conversa resumiu-se a uma declaração de princípio: a Câmara não concebia a possibilidade da existência de qualquer contencioso com a família de António, de tal modo era estimada de há muitas gerações a esta parte, pelo exemplo de rectidão e  pelo que havia feito a favor do concelho e dos conterrâneos.
Enveredar por qualquer conflito estava fora de questão, não só por razões óbvias mas igualmente por motivos pessoais, que, aliás, convergiriam. O presidente, para quem a ordem do mundo, ainda repousava no estatuto e na linhagem dos notáveis, não podia esquecer, algum dia, as palavras de consideração que seus pais e tios dedicaram  aos familiares de António.
Era certo que se tinha afastado, ainda novo, do concelho, estudado num colégio da Foz, no Porto, embora sem grande sucesso, e vivido em África sem brilho especial, mas tal não o afastara das raízes.
O percurso da sua vida era de todos sabido e, com regularidade, reavivado pelo próprio: regressado de África, o menino Arturinho, como ainda era tratado na aldeia, ou o Arturinho, para todos os efeitos no concelho, sentiu a necessidade de meter empenhos para obter uma situação na vida condigna e os conhecidos influentes em Lisboa, a quem entreposto amigo falara, convergiram para que fosse nomeado presidente da câmara. Pouco depois, casou com uma prima em segundo grau e não teve filhos. Alcançados estes dois arrumos, o novel presidente teve uma vida pacata, feita da gestão de interesses tão acomodados quanto consolidados, sacudida unicamente pela recepção de algum ministro e pela etapa local da Volta a Portugal.  O pior aconteceu quando recebeu o próprio Presidente Thomaz e de tanta vénia e beija-mão não só  caiu do palanque como viu ossos das duas breves pernas fracturados.  Mudado o regime e após alguns anos de retiro no Porto, o Arturinho não deixou de viver os momentos de glória democrática. O Partido Socialista foi buscá-lo para candidato e ganhou – como independente e de acordo com congeminações institucionais muito pessoais que tinha por apolíticas – os três sufrágios a que se apresentou.
Não era, pois, a sossegada vida corrente do município, que conhecia de cor, muito menos qualquer indemnização, que se resolveria com dois dedos de conversa ou com algumas diligências correntes, que o trazia invulgarmente preocupado e fazia sentir a necessidade de desabafar.
O problema, melindroso e sem solução à vista era a reunião com os alemães, que haviam anunciado, de surpresa, a sua chegada para breve.
            A história que conseguira tirar-lhe o sono conta-se em duas palavras: a câmara concorrera e obtivera fundos teutónicos para proceder ao saneamento e à distribuição de água, com a construção de um novo depósito, em aldeia avantajada, mas só iniciara vagamente as obras, apesar de ter recebido todas as prestações previstas no calendário de execução.
Inopinadamente, sem que estivesse previsto ou houvesse antecedentes conhecidos, os beneméritos tinham escrito a dizer que vinham, no próximo mês, verificar a boa execução e a conclusão do projecto. Como lhes explicar que tinham surgido outras prioridades, a reparação de caminhos e pontes, e que o dinheiro recebido fora utilizado para as satisfazer, sem, porém, comprometer a execução do contratado quando houvesse condições para o fazer? Por quem se tomavam esses desconhecidos para duvidar do combinado? Como os receber, se a diferença de língua e a presença de tradutores iriam impedir que se estivesse à-vontade para conversar?
Os alemães eram o problema. Já quanto à indemnização pelo terreno expropriado, rematou, quando o sr. Robalo se veio despedir, estava fora de questão qualquer desentendimento aborrecido, pelo que o melhor era António falar com a família, pois esta entenderia que as obras da nova avenida eram caras e Câmara não podia pagar mais do que propusera.
Ao atravessar o largo da feira, depois de recusar um último convite para lanchar e feitas as despedidas, ocorreu a António, ao rememorar a conversa, que o candidato social-democrata e sportinguista que fazia frente ao Arturinho, dono de uma empresa de viação, tinha no estado dos caminhos a bandeira eleitoral mais querida.
Foi, então que, por um momento e antes de começar a meditar na conversa a ter com o advogado, se interrogou: “os alemães não chegarão demasiado tarde?”

Luís A.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dos governantes e dos governados


Há algo de estranho neste muito nosso modo de ser. Exigimos aos governantes aquilo que não exigimos a nós próprios. Fugimos aos impostos, não respeitamos as mais elementares regras de civismo (o que se passa nas estradas portuguesas é uma vergonha nacional. O comportamento dos portugueses ao volante é um espelho do que somos). Clamamos que os políticos não querem saber de nós e pouco nos importamos com o vizinho do lado. Bradamos que os políticos só querem encher os bolsos e se a oportunidade surgir fazemos exactamente o mesmo. Vociferamos contra as negociatas da política e reverenciamos a cunha e o chico-espertismo. Praguejamos contra a classe política por nada fazer e ficamos sentados à espera que alguém faça por nós. Satirizamos a falta de compaixão de quem manda e veneramos o queixume egoísta. Consideramos que temos sempre razão e conhecemos muito bem a causa de todos os problemas. Temos opinião sobre tudo e julgamos com a maior facilidade, sabendo, à partida, que fulano de tal é culpado porque sim.
Os políticos que temos, gostemos ou não deles, são somente o reflexo generalizado deste estranho modo de ser. Exigimos aos políticos virtudes que obliteramos no nosso dia-a-dia. A principal causa da nossa decadência é moral, o resto vem por arrasto.

João M

domingo, 27 de novembro de 2011

Da democracia e da crítica que Platão lhe moveu

Recentemente, Grécia e Itália foram palco de uma encenação política que levou muita gente (eu incluído) a proclamar, com veemente indignação, aqui d’el rei que se tratava de uma tragédia à moda antiga, digna de um Ésquilo ou de Lívio Andronico. Em questão estava a substituição do primeiro-ministro Papandreu e do seu homónimo Berlusconi, eleitos por sufrágio popular, por Papademos e Monti, ambos tecnocratas de ofício e eurocratas convictos. A tragédia tinha um título – O crepúsculo da democracia.
            Porque a emoção é inimiga da reflexão, é proveitoso não nos deixarmos manipular pelo efeito comovente dos discursos (pathos) e, serenamente, sopesarmos os argumentos e decidirmo-nos por aqueles cuja força nos convença por maioria de razão.
            Foi Platão quem primeiro se debruçou sobre o assunto da melhor forma de governar. Curiosamente, da sua crítica à democracia podemos extrair o filão argumentativo que suporta a decisão de substituir políticos eleitos democraticamente por tecnocratas. Resumidamente, a argumentação platónica traduz-se no seguinte: se estivermos doentes e pretendermos curar-nos, confiamos no médico e não no voto da populaça a escolha do remédio eficaz; a ninguém lembraria confiar à assembleia de passageiros de um navio a arte de navegar em mar alto, tendo ali à mão a competência do comandante para impedir o naufrágio iminente; analogamente, só a cegueira mental justifica que entreguemos a uma turba de palradores ignorantes as decisões políticas. Por consequência, o poder de guiar a nau do estado deve ser dado àqueles que detêm o saber técnico para o efeito. Aqui deparamo-nos com o significado da palavra tecnocratas.
            À distância de vinte e quatro séculos, podemos ser tentados a subtrair créditos ao argumento de Platão, a desmerecê-lo mesmo, em razão das inclinações do filósofo por um género de tirania esclarecida, hoje por hoje desconsiderada à luz da mundividência ocidental. No entanto, os méritos da democracia, em tempos de incerteza e de angústia colectivas, correm o risco de ser depreciados por populações ansiosas à espera de um homem providencial e de retórica eficaz.
Se pretendemos acautelar o futuro da democracia não basta cantar loas às suas virtudes inquestionáveis, ou, como afirma Fareed Zakaria “não é felicitando-nos por viver em democracia que resolvemos os nossos problemas.” (O Futuro da liberdade, Gradiva). É necessário levar a sério o argumento de Platão e darmo-nos ao trabalho de desconstruir os seus fundamentos. E porque não aproveitá-lo para refundar os alicerces da democracia? É esse o objectivo do reputado jornalista e editor da Newsweek International, ex-professor de filosofia política em Harvard. “Actualmente o que temos necessidade em política, é de menos democracia, não de mais. Com isto não quero dizer que devemos apoiar autocratas ou ditadores, mas antes devemos interrogar-nos por que razão algumas instituições (…) funcionam mal.” Defende Zakaria que a solução para a uma democracia disfuncional é dotá-la de mecanismos de delegação, que permite que determinadas decisões não fiquem reféns de uma desregulação democrática, que é o que acontece quando os políticos decidem em função de interesses corporativos, sendo permeáveis ao nepotismo, aos favorecimentos, aos lobbies e à pressão eleitoralista. “O maior perigo de uma democracia sem entraves e disfuncional é que ela desacredite o sistema democrático em si, projectando uma sombra sobre toda e qualquer governação popular.” Delegar decisões e autoridade a instituições de reconhecida competência, sempre sob o controlo do Parlamento, é uma solução que retira ao argumento de Platão a dose de persuasão que, em tempos de crise democrática, lhe pode ser atribuída.      
             Afirmou um dia John Dewey: “O remédio para os males da democracia, é mais democracia”. Ao que me atrevo a acrescentar: sobretudo melhor democracia.  

José M.

Regresso ao passado



É este o futuro?

João M

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Olhares do quotidiano

A irmandade do cigarro

                 Esgotado por uma incursão natalícia a um centro comercial, esgueirei-me, entre compras, para um descansado cigarro. Resmungando pensamentos saturados de lojas, compras e saldos, dirigi-me a um desses espaços para onde os fumadores são empurrados, de modo a espiarem o seu pecado e a manterem limpa a azáfama consumista. Enquanto fumava, procurando um momento de sossego, acercou-se um homem de 50 anos de vida cansada e amarrotada. Pediu licença e, num olhar cabisbaixo, iniciou a colheita das beatas plantadas no cinzeiro, escolhendo-as num cuidado de filigrana. Ofereci-lhe um cigarro e do seu rosto de olhos e barba saiu um obrigado fraterno que só os fumadores compreendem. Afastou-se num caminhar lento e curvado, respigando outros cinzeiros repletos de cigarros apressados.
                Saúde, irmão!
João M

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O caminho da natureza ou o caminho da graça?


Acabado de sair em DVD, o último filme de Terrence Malick é um assombro cinematográfico que vale a pena ver ou rever. O estilo cinematográfico de Malick, construído em imagens poeticamente esculpidas, convoca-nos para uma reflexão que é, cada vez mais, pautada pelo indizível mistério que somos.
Há uma beleza no cinema de Malick que é, ao mesmo tempo, quietude e desassossego. Sublime!


 

João M